Do you like ‘happy’ music?, um estudante de inglês brasileiro que estudava em Nova York perguntou ao seu professor. You mean happy music, not sad music?, disse o professor. No, I mean, ‘happy, happy’ music! Somente algum tempo depois, o professor entendeu o que o brasileiro queria dizer: rap music.
Este episódio (aliás, verídico) mostra um desvio de pronúncia muito comum entre os brasileiros aprendizes de inglês. É difícil para nós brasileiros diferenciarmos os sons [h] fricativa glotal e [ɹ] retroflexo, por exemplo, em pares mínimos como Rome/rome e hat/rat. Existe uma diferença fonológica entre as línguas inglesa e portuguesa. Em português, o som [h] é um som rótico, isto é, um som relacionado com a letra ortográfica < r > (por exemplo, na minha pronúncia mineira, uso [h] quando pronuncio < rr > entre vogais e < r > inicial, como em guerra e rápido). Já em inglês, o som [h] não é rótico.
Além disso, percebemos que o estudante brasileiro é capaz de entender que existe uma diferença entre happy e rap, mas não é capaz de produzir o som correto. A relação entre percepção e produção tem sido um assunto bastante pesquisado em segunda língua. Um dos modelos de aprendizagem mais conhecido da atualidade é o Speech Learning Model, conceptualizado por Flege (1995). Uma das hipóteses deste modelo argumenta que a produção da fala do aprendiz de uma língua estrangeira está fortemente determinada pela forma como o som é percebido ao nível fonético. Assim, em português, os sons glotal e retroflexo ocorrem como alofones do mesmo fonema, por exemplo, em final de sílaba antes de consonante desvozeada (e.g., posso dizer carta com o [h] ou [ɹ] – o significado não muda, embora o uso do [ɹ] marque minha pronúncia como típica do dialeto caipira [Critófaro Silva, 2007]). Mas em inglês, estes sons são fonemas distintos, isto é, trocando um som pelo outro, mudamos o significado da palavra.
O estudante brasileiro está transferindo um conhecimento fonológico do português para o inglês. A influência da primeira língua (L1) na segunda (L2) pode ser notada na produção oral do aprendiz de língua estrangeira. A transferência do conhecimento fonético e fonológico, assim como o conhecimento gráfico-fonético-fonológico parecem ser as duas principais causas dos desvios de pronúncia (Zimmer, Silveria e Alves, 2009).
É também possível notar a transferência do português na fala do estudande de inglês quando ele diz happy no lugar de rap, não apenas analisando o som inicial, mas também o som final. O estudante acrescenta um /i/ no final da palavra. Esta estratégia, chamada epêntese, é uma forma de lidarmos com construções sonoras de línguas estrangeiras não permitidas na primeira língua (L1). Por exemplo, em português não existe palavras terminada em . Por isso, ao dizer New York e park, dizemos ‘New Yorki’ e ‘parki’. Assim, quebramos um encontro consonantal não possível em português e o transformamos em sílabas separadas. Para nós brasileiros fica muito mais fácil de pronunciar.
A literatura tem extensivamente reportado através de pesquisas a força perversiva da L1 na interlíngua (e.g., Kluge e Baptista, 2008), assim como as possíveis relações entre a percepção e produção de sons (e.g., Major, 1998). As implicações desses tipos de pesquisa para o professor de língua estrangeira são enormes: ajuda o professor a ter uma consciência clara e objetiva das principais dificuldades dos aprendizes, assim como as possíveis causas dos desvios; e contribui para que o professor tenha expectativas reais quanto ao que o aprendiz é capaz de produzir. Além disso, dá ao professor diretrizes sobre a importância de enfatizar na sala de aula certos desvios que são difícieis de serem percebidos pelos aprendizes.
Referências
Cristófaro Silva, T. (2007). Fonética e fonologia do português (9th ed). São Paulo: Editora Contexto.
Flege, J. (1995). Second language speech learning: Theory, findings, and problems. In W. Strange (Ed.), Speech perception and linguistic experience: Theoretical and methodological issues (pp. 233-277). Baltimore: York Press.
Kluge, D. C., & Baptista, B. O. (2008). Production and identification of English word-final nasal consonants by Brazilian EFL learners. Ilha do Desterro. A journal of English language, literatures in English and cultural studies. 55: 15-40.
Major, R.C. (1998). Interlanguage phonetics and phonology. An introduction. Studies in Second Language Acquisition. 20, 2: 131-137.
Zimmer, M, Silveira, R., & Alves, U. K. (2009). Pronunciation Instruction for Brazilians: Bringing theory and practice together. UK: Cambridge Scholars Publishing.